A Arte da Solitude

Temos medo da solitude ou da solidão? Muitos de nós sofremos com a ideia da solidão ou com o medo de acabarmos sozinhos. Não há vergonha nisso. Enquanto seres humanos somos criaturas sociais, inerentemente levados a nos conectar com outros e pertencer a grupos ou comunidades. Simultaneamente, ainda que sejamos seres sociais, também precisamos de solitude, quer percebamos ou não. A solitude é um estado que podemos criar para nós mesmos para refletir, aprender, reconectar com o momento presente e nos recuperar física e mentalmente. Nesse artigo, iremos abordar os benefícios da solitude e explicar de forma clara a distinção entre solitude e solidão. O que vamos perceber é que criar tempo para nós mesmos pode ser um dos presentes mais valiosos que podemos nos dar.

Podemos estar sozinhos e sermos felizes?

A maioria das pessoas encara sociabilidade, bem estar e felicidade como a mesma coisa, e até certo ponto elas tem razão. Nós precisamos, afinal de contas, de pessoas para nos conectarmos e conversarmos sobre o que estamos pensando, nossas alegrias, tristezas e sonhos. No entanto, chegamos a um ponto em nossa cultura em que achamos que “estar sozinhos” é a mesma coisa de sermos antissociais, tristes ou deprimidos. Com isso têm crescido a concepção equivocada de que “estar sozinho” é sinônimo de “solidão”. Mas isso simplistamente não é verdade!

A definição oficial de “solidão” é uma tristeza causada pela falta de amizades ou companhia. A definição de “sozinho”, no entanto, é estar “sem outra pessoa”. Então, “estar sozinho” não é a mesma coisa que “solidão”, e diferentemente de solidão, estar sozinho é comprovadamente benéfico para nossa saúde e bem estar.

A palavra “solteira” cuja etimologia vem do latim, SOLITARIUS,  significa “indivíduo sem matrimônio”, ou seja “aquela que não casou”.

Como perdemos a Arte da Solitude

Uma resposta para essa pergunta é que nós perdemos a habilidade de nos sentirmos confortáveis e seguros enquanto estamos sozinhos. Há algumas razões que contribuem para esse desconforto. O aumento da população mundial nos últimos cem anos, combinado com saltos tecnológicos impressionantes, nos fez perder a capacidade de estarmos verdadeiramente sozinhos. Graças a televisão, computadores e mídias sociais nunca estamos realmente sozinhos, mesmo quando estamos a sós em nossas casas. Isso fez com que mudássemos a maneira pela qual entendemos o que é estar sozinho e encararmos esse fato como algo negativo.

Observe a linguagem que usamos quando nos referirmos a estarmos sozinhos e você vai entender do que estamos falando. A palavra “solteira” cuja etimologia vem do latim, SOLITARIUS,  significa “indivíduo sem matrimônio”, ou seja “aquela que não casou”. O termo “solitário” tem a mesma origem. Na idade media a tecelagem era uma das poucas atividades que permitia que as mulheres fossem financeiramente autossuficientes, ou seja, ser tecelã era quase que sinônimo de ser solteira. Então essa palavra tinha uma conotação relativamente positiva, pois significava aquela mulher tinha meios de se manter sozinha e só estava se casando porque essa era sua escolha e não porque estava sendo forçada por causa de circunstâncias financeiras.

É interessante conhecer essa história porque ainda nos dias de hoje a palavra solteira ou solteirona carrega uma conotação negativa para mulheres que não se casaram depois de uma certa idade. Hoje em dia, no entanto, é raro escutar alguém chamar uma mulher de solteirona a sério, mas mesmo assim, quando ouvimos essa palavra, mesmo que por um segundo, nós assumimos que essa mulher foi rejeitada, é sozinha ou infeliz.

Embora tenhamos feito muitos progressos na área cultural ao falar mais sobre os benefícios de estar sozinhos, ainda resta um certo desconforto com esse pensamento. Uma vez que compreendemos plenamente os benefícios de estarmos sozinhos, acho que podemos começar a mudar nossa perspectiva.

A solitude nos convida e encoraja a sermos mais produtivos, autênticos e criativos.

Os benefícios de passa tempo sozinho

Apesar da negatividade ligada ao conceito de “estar sozinho”, a solitude é benéfica. Veja Hemingway, Anais Nin, Rilke ou Mary Oliver. Pergunte a qualquer artista e eles dirão a mesma coisa. Para citar um dos pais da neurociência, Santiago Ramon y Cajal: “Ah, solitude reconfortante, quão favorável tu és ao pensamento original”. O ato de criar requer solitude. Você precisa estar sozinho para pensar e criar. A solitude nos convida e encoraja a sermos mais produtivos, autênticos e criativos. Somente sozinhos é que podemos entrar em contato com a nossa engenhosidade e vulnerabilidade e ter um diálogo honesto consigo mesmo.

Mas tudo bem. Não somos Ernest Hemingway ou Rainer Marie Rilke. Podemos estar pensando: não estou criando nenhuma obra de arte, porque então vou ficar sozinho? Mesmo quando queremos ficar sozinhos em alguns momentos, podemos não enxergar como prioridade reservar um tempo só para nós. Pense bem: você considera que ter um tempo para si é tão importante quanto outro hábitos de autocuidado? É tão importante quanto dormir, se alimentar, ler ou tomar banho? Sua primeira reação pode ser dizer não. A seguir vamos mostrar porque talvez você deva reconsiderar.

Porque precisamos de tempo sozinhos?

Nós precisamos de um tempo sozinho por uma razão muito importante: para nos conhecermos. O quão bem podemos nos conhecer, se enchemos nossa agenda com saídas, encontros, programas de televisão e mídias sociais? Como podemos escutar nossa voz interna quando estamos constantemente escutando outras vozes? Isso não pode ser feito com estímulos exteriores que nos distrai o tempo todo. Sem esse tempo não conseguimos sentar em silêncio e nos perguntarmos questões importantes e escutar de verdade a resposta. “O que eu realmente quero desse relacionamento?”, “Eu realmente quero esse trabalho?”, “Porque esse comentários me chateou tanto?” Você ficaria surpreso com as respostas que poderiam surgir, o silêncio é uma fonte incrível de orientação e reconexão com nossa bússola interna. Quanto mais evitamos estar sozinhos, menos entenderemos nossos pensamentos e emoções. Quanto menos entendemos o que estamos pensamento e sentindo, mais difícil será viver nossa verdade e ir atrás do que queremos.

Quanto mais evitamos estar sozinhos, menos entenderemos nossos pensamentos e emoções.

A meditação é uma maneira de apreciar o tempo que passamos sozinhos

Quando digo para as pessoas o quanto gosto de passar tempo sozinho, recebo olhares de ceticismo, descrença e desconforto. Algumas pessoas se apressam a perguntar se eu estou bem, ou perguntam o porque disso. Alguns de meus colegas já me disseram que a ideia de estar sozinho na própria casa os faz se sentirem desconfortáveis, apreensivos ou como se estivesses perdendo alguma coisa. É compreensível, dada a conotação social de “estar sozinho”. Claro, ficar sozinho pode ser assustador. Mas pense bem – quando imaginamos que estamos sozinhos, o que nos vem a mente? Muitos de nós não visualiza solitude, e sim solidão. Agora que entendemos a diferença entre as duas coisas, será que conseguimos encarar a solitude de uma maneira mais positiva? Se pudermos, iremos aprender muito sobre nós mesmos e poderemos trabalhar para que o nosso mundo interno esteja alinhado com nossos sonhos e valores.

Uma maneira de se entusiasmar com essa ideia é praticar meditação. A meditação nos dá um tempo para estarmos sozinhos e observar nossos pensamentos, sentimentos e sensações físicas. Meditações de consciência, especificamente, são perfeitas para começar essa jornada. “Consciência” significa estar presente no momento. Isso inclui estar conscientes de nossos sentidos, bem como com o que estamos sentindo e pensando. Somente quando nos tornamos conscientes sobre o que sentimos e como nos sentimos podemos entender o que está se passando dentro de nós. E somente quando entendemos o que está se passando conosco é que aprofundaremos a consciência de nós mesmos.

Como começar a Meditar

Você deve estar pensando. “Bom, eu não sei meditar”.  Você pode estar pensando por onde começar. É por isso que trabalhamos para criar uma série no Meditopia que é dedicada a explicar os fundamentos básicos da meditação.

Já recomendei o Meditopia para muitos amigos, por diferentes razões. As mudanças mais drásticas que percebi giram em torno da habilidade que eles desenvolveram em se sentarem sozinhos, em solitude, sem se moverem e aprenderem mais sobre si mesmos. Quanto mais meditam, mais falam sobre a sensação de paz, confiança e segurança em suas atividades diárias.

Se passar tempo sozinho parece desconfortável ou assustador, tente começar aos poucos. A opção “Para começar” no Meditopia tem meditações de 1 e 3 minutos. Práticas de 10-15 minutos podem parecer muito tempo no começo, mas 1-3 minutos é bem mais confortável. Com o tempo você vai perceber que consegue ficar mais e mais tempo consigo mesmo.

Pode ser que você ainda esteja na dúvida sobre se dar um tempo. Mas pense dessa forma: como você pode ter relações saudáveis com as pessoas – seja amizade ou um namoro – se não consegue ter uma relação saudável consigo mesmo? Se você não se conhece ou fica desconfortável ou apreensivo de passar tempo com você mesmo, então porque alguém iria querer passar tempo contigo?

Conte para a gente o que você pensa sobre estar sozinho. Como você se sente quando está sozinho? Se você está tentando passar mais tempo sozinho, o que foi que mais te ajudou?

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