Mindfulness e Capitalismo Podem Coexistir?

Escritor: Escritor Convidado

Tradutor: Rosa Frazão

“Chegará o dia em que o capitalismo vai corromper todo esse movimento de bem-estar, até mesmo a meditação. Nós vamos transformar isso em nada mais do que um produto”

Foi isso que uma amiga me disse quando falei que estava decidida a tentar meditar. Sou muito ansiosa, especialmente quando o assunto é trabalho. Estou sempre tensa e nervosa quando estou no trabalho ou fazendo alguma coisa que tenha a ver com trabalho. Por isso, queria tentar aprender a meditar.  Isso faz alguns anos, quando meditação e mindfulness não era moda como hoje em dia, quando ainda estavam começando a receber atenção. E brinquei com a minha amiga, chamando-a de cética. Mas hoje, eu olho o mundo à minha volta e não consigo deixar de pensar que ela podia estar certa.

Mindfulness e Capitalismo

Um pouco do meu histórico: Eu tentei começar a meditar mais ou menos na época que tive essa conversa com minha amiga Emília, mas não consegui. Decidi que ainda não estava pronta e que tentaria novamente quando estivesse. Anos se passarem antes de eu tentar meditar novamente e, durante esses anos, vi a meditação e o mindfulness se popularizarem.

Na verdade, todo o movimento de bem-estar se popularizou: alimentos naturais, espirulina, mindful eating… Esse conceito maravilhoso estava rapidamente se tornando uma indústria! Aplicativos de meditação e mindfulness, retiros e centros de meditação, livros de meditação, sites, DVDs, programas corporativos … Onde quer que eu olhasse, era meditação, meditação, meditação.

“Você está exagerando”, eu me dizia, “não é bom que as pessoas estejam se envolvendo com algo que é bom para elas? Você provavelmente está pensando nisso apenas por causa do que a Emília disse.” Mas será? Havia apenas uma maneira de responder a essa pergunta. Pesquisei em site após site, lendo o que vários especialistas e jornalistas tinham a dizer sobre o assunto. Rapidamente vi que Emília estava certa. O que deveria ser uma jornada pessoal em busca de uma saúde melhor, rapidamente se transformou em um mercado muito lucrativo, para não mencionar explorável. Um mercado que foi avaliado em US $ 1,2 bilhão em 2017.

A Joia Rara

Perceber que a Emília tinha razão, foi um pouco perturbador. Mas foi também um alívio, porque significava que eu poderia finalmente parar de me sentir culpada por nunca ter tentado meditar. Agora, eu podia pensar que não é que eu nunca tivesse conseguido meditar, é que simplesmente não tinha caído na armadilha do mindfulness.

Algumas semanas depois, Emília e eu nos encontramos para tomar um café. Mas eu não consegui compartilhar minhas observações com ela. “Você estava certa”, eu disse, “Tudo que está relacionado à meditação não serve para nada. É tudo apenas uma jogada de marketing”. Emília ficou muito quieta de repente, até que finalmente disse: “Sabe, eu meio que acho o contrário agora”. Quase engasguei com o meu café.

“A questão é”, disse ela, “uma grande parte do mercado de bem-estar tem fins lucrativos e é parte do sistema capitalista. Mas há exceções. Há pessoas que realmente têm a intenção de ajudar os outros. São joias raras, mas é só uma questão de encontrá-las”.

E ela continuou dizendo como apesar da meditação e da atenção plena serem comercializadas, ainda é possível para nós, como indivíduos, nos beneficiar disso, tanto pessoal quanto espiritualmente. Ela tinha experimentado a meditação.

À luz da minha pesquisa, achei isso um pouco difícil de acreditar, embora também achasse bastante divertido que, no decorrer de alguns anos, ela e eu houvessemos mudado completamente de posição. Eu me tornei a cética e ela se tornou … ingênua? Esperançosa? Fosse o que fosse, me diverti com a situação. Então, decidi ouvir.

Meditação e Mindfulness Como Prática, Não Como Solução

Pelo o que a Emília me disse, haviam apps, livros e programas de meditação que realmente tinham a intenção de ajudar as pessoas. Um dos aplicativos que ela mencionou foi o Meditopia.

Ela disse que o que diferenciava o Meditopia era que o objetivo desse aplicativo não era ser apenas um alívio instantâneo para a dor ou um método anti-estresse. Ele não tenta convencê-la de que depois de apenas uma meditação todos os seus problemas serão resolvidos. Emília mencionou que esse aplicativo lhe fez ter paciência com o processo. Isso a ajudou a chegar à raiz de sua ansiedade, estresse e sentimentos de insegurança. Após meses de prática, ela lentamente começou a descobrir a raiz de suas emoções, comportamentos e ações, e começou a fazer fazendo pequenas mudanças em como vivia e via as coisas. Em vez do Band-Aid que a maioria dos produtos oferece, ela se sentiu fazendo um progresso sustentável.

“Realmente me ajudou”, disse ela. “É como ter uma terapeuta me ajudando a trabalhar a mente e as emoções todos os dias”.

Dando um Chance à Meditação

Emília conseguiu mudar minha forma de pensar mais uma vez. Meu ceticismo persistiu por alguns dias, mas não pude deixar de questionar minha maneira de pensar. Aquela vozinha na minha cabeça, a mesma que me fazia sentir culpada por não persistir com a meditação, ficou perguntando: “E se ela estiver certa?” Também fiquei me perguntando qual era a vantagem de se condenar todos os aplicativos, livros e produtos que visam ajudar no bem-estar mental. Percebi a armadilha que era rejeitar qualquer coisa que fosse comercializada; pensei em todos os outros produtos que eu usava e que me faziam tão bem! Comecei a olhar para tudo o que eu tenho em minha vida e me perguntar se não seria um pouco hipócrita da minha parte usar tantos outros produtos e serviços diariamente e rejeitar os produtos que usavam a meditação como base.

Talvez eu estivesse generalizando demais e não enxergando que a meditação é uma técnica, e que pode ajudar muitas pessoas quando compartilhada em larga escala.

Foi assim que eu deixei os meus preconceitos de lado e dei outra chance à meditação. Para ser sincera, quando baixei o aplicativo pela primeira vez, ainda revirei os olhos pensando que a meditação devia ser algo espiritual e pessoal, e não uma técnica acessada com alguns botões.

Será Que um Aplicativo de Meditação Pode Mudar Sua Vida?

Comecei minha primeira meditação com o aplicativo me sentindo um pouco desconfortável e inquieta. Mas uma das primeiras coisas que a orientadora disse foi que isso era completamente normal e que ficaria mais fácil com o tempo. Isso me ajudou a tranquilizar minha mente e, quando percebi, a meditação já tinha acabado. Foi muito rápido!

Fiz todas as meditações introdutórias, que ensinam como meditar, e depois comecei uma série sobre ansiedade. Parte de mim ainda queria provar que a Emília estava errada. Pensei que essa série fosse apenas repetir “respire fundo e se acalme”, o que eu já estava cansada de ouvir, sempre que ficava ansiosa. Mas não foi isso que aconteceu. As meditações dessa série me fizeram tentar descobrir as causas subjacentes ao meu estresse. Eu nenhuma hora eu senti que estavam querendo me dar uma solução imediata; mas que eu descobrisse a solução estava dentro de mim. As meditações apenas me guiaram para eu conseguir entender melhor meus gatilhos, emoções e comportamentos.

Eu sempre atribuí meu nervosismo ao trabalho. Todos os dias, quando eu olhava para a minha lista de coisas a fazer, sentia a ansiedade subindo pelo meu peito. Às vezes, sentia minha respiração curta e superficial durante todo o dia. As meditações da série de ansiedade me levaram a pensar no motivo pelo qual eu ficava tão ansiosa. Afinal, muitas pessoas são tão ocupadas quanto eu, mas não são tão estressadas quanto eu.

Com o tempo, percebi que minha ansiedade no trabalho vinha de um medo profundamente arraigado do fracasso. Eu tinha tanto medo de desapontar minha chefe, meus colegas de trabalho e até a mim mesma, que tentava terminar tudo de uma vez, não conseguia nem respirar até que tivesse terminado. Conscientizar-me desse medo me ajudou a trabalhar com ele. A mudança não aconteceu da noite para o dia, claro. Foi, e ainda é, um processo gradual. De vez em quando, ainda tenho o impulso de entrar em pânico no trabalho. Mas como agora eu sei o que causa minha ansiedade, posso trabalhar nisso e me acalmar.

É interessante olhar para trás e ver como minha opinião mudou. Fico feliz por ter feito essa transição, por focar no valor e no objetivo da meditação, ao invés do meio pelo qual ela chega até a mim.

Eu sei que este é um tema controverso, mas gostaria de saber o que você pensa sobre isso. Mudei de opinião várias vezes, e entendo a hesitação das pessoas ao tentar se transformar emocional e espiritualmente usando um aplicativo de smartphone.

Aguardo para ler seus comentários e ideias sobre este tópico na seção de comentários abaixo!

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