Nossa busca por conexão humana

Países do mundo todo declaram que já uma epidemia de solidão, apesar de esse não ser exatamente o caso. Na verdade o que nos faz sofrer talvez não seja solidão.
Países do mundo todo declaram que já uma epidemia de solidão, apesar de esse não ser exatamente o caso. Na verdade o que nos faz sofrer talvez não seja solidão.

Tradutor: Flavia Totori

Albert Camus disse uma vez, “para entendermos o mundo, as vezes precisamos nos afastar dele”. O que podemos entender dessa frase é que a solitude nos trás o espaço que precisamos para contemplar o mundo que vivemos. É um momento nosso para analisarmos nosso dia e nossas reações aos acontecimentos. Nossas emoções, pensamentos, preocupações, desejos… Essas emoções ficam mais claras para nós quando as examinamos à luz de nós mesmo. Ainda sim, apesar disso, muitos de nós considera solidão e solitude a mesma coisa e por consequência, algo negativo. Estudos recentes mostram que 3 em cada 4 pessoas sofrem de “solidão”. Países do mundo todo declaram que já uma epidemia de solidão, apesar de esse não ser exatamente o caso. Na verdade o que nos faz sofrer talvez não seja solidão. Pode ser tão e somente nossa inabilidade de abraçar a solitude e consequentemente a nós mesmos.

Evitar a si mesmo para escapar da solidão

Definida de maneira simples, a solidão é a necessidade de conexão humana. É não conseguir formar conexões reais com os outros, mesmo quando estamos rodeados de pessoas e igualmente quando não somos capazes de nos conectarmos com nós mesmo quando estamos sozinhos. Isso pode nos fazer sentir sozinhos, por exemplo, quando estamos em casa ou saímos sozinhos, ainda que tenhamos nossa própria companhia ou que estejamos rodeados de outras pessoas. Nos tornamos tão desconectados que pensamos estar sentindo solidão quando não há outra pessoa para conversar. A escritora Hannah Arendt já disse que uma das conexões mais positivas que podemos estabelecer é com nós mesmo quando estamos sozinhos: “pensar, existencialmente falando é solitário, mas não tem a ver com solidão; a solitude é a situação humana na qual eu sou minha própria companhia”.

Conversando com a gente mesmo, podemos explorar nosso mundo interno e entender quem somos enquanto pessoas. Muitos de nós vive uma vida tão agitada que quando voltamos para casa do trabalho ou da escola, sentimos que estamos mergulhando no isolamento. Durante o dia corremos de um lugar para o outro com uma lista interminável de atividades. Mal temos tempo de falar “oi” para as pessoas a nossa volta, menos ainda ter uma conversa de verdade. A noite, quando chegamos em casa, talvez façamos o jantar, ligamos a TV, entramos no Facebook ou Twitter para conversar, achando que isso é interação social. Nós usamos essas distrações para escaparmos da solitude. Elas nos permite escapar de nossos pensamentos e emoções. Corremos de nós mesmo e o pior é que nem percebemos. Estamos tão acostumados a fazer isso que em nossas mentes, estar sozinho virou sinônimo de solidão.

Formas vazias de conexão humana

Às vezes, ao invés de ir pra casa saímos a noite, jantamos ou vamos tomar alguma coisa com os amigos. Considere o conteúdo da maioria das conversas. Muitas vezes passamos horas com as pessoas e nunca falamos nada de mais profundo. E isso não é um julgamento – todos nós fazemos isso. O que quero é chamar a atenção para como essas conversas superficiais acabam nos deixando com a sensação de falta de conexão e solidão. Dificilmente dividimos o que realmente está passando pela nossa cabeça. Não falamos da ansiedade ou da dor que sentimos, ou das dificuldades e desafios que estamos enfrentando. Quando falamos, normalmente a resposta é um sorriso meio amarelo, e um “vai ficar tudo bem”,  ou “toma alguma coisa para esquecer”.

Na nossa cabeça, interpretamos que isso é ser social, quando na verdade não estamos formando nenhuma conexão humana real. Assim como falamos antes, sobre nos amar antes de sermos capaz de amar alguém de verdade, precisamos também dar um passo para nos sentirmos confortáveis e querermos passar tempo com a gente mesmo, antes de sair procurando remédios contra nossa solidão por meio de companhias ou distrações.

Se quisermos formar conexões genuínas e se quisermos nos livrar de nossa solidão e inquietude, então precisamos primeiro mudar a relação e a compreensão do que é solitude. Precisamos redefinir o que estar sozinho significa para a gente, juntamente com o relacionamento que temos conosco. Só assim poderemos formar conexões de verdade com os outros.

A conexão humana como necessidade inata e mecanismo de sofrimento

Todos nós às vezes temos emoções difíceis: Raiva, medo, solidão… Essas emoções são remanescentes de um mecanismos de sobrevivência que nos manteve vivo na idade da pedra. Sentimos medo porque isso nos fazia correr do perigo. Sentimos raiva porque ela nos impulsiona a lutar contra um inimigo. A solidão funciona da mesma forma.

Pense nisso: porque somos capazes de sentir solidão? Porque temos a necessidade de nos conectar com outros? Os seres humanos foram capazes de sobreviver por centenas de anos porque andavam em bandos. Para citar Game of Thrones: “Quando o inverno chegar, o lobo solitário morre, mas a matilha sobrevive”. Para sobreviver ao inverno e outras situações complicados, precisamos dos outros. Precisamos de uma tribo, de uma família, de amigos. No passado, os seres humanos costumavam viver em tribos de 150-200 pessoas. Todos se conheciam e se apoiavam, porque precisavam e dependiam uns do outros. Eles conversavam de verdade porque superficialidades não lhes servia. Eles trocavam informações, experiências, pensamentos, sentimentos. Eles transmitiam o que aprenderam às gerações que vieram depois deles … Impulsionados por suas necessidades, eles formaram comunidades e relacionamentos reais. Então, o que aconteceu entre aquela época histórica e agora?

Nós ainda precisamos de contato. Quando não temos conexões com outros, começamos a nos sentir sozinhos. Mas imagine se não pudéssemos sentir solidão. Imagine que a “solidão” não existisse. Se esse fosse o caso, você acha que sentiria vontade de sair de casa e estar com outras pessoas? Você procuraria relacionamentos ou amizades? Claro que não. Então, ironicamente é a solidão que nos faz levantar e sair de frente da TV para estar com pessoas. Nossa habilidade de sentir solidão de certa forma é responsável por formarmos famílias, termos relacionamentos amorosos e amizades. Isto é, se conseguimos definir corretamente o que é solidão e nossa relação com ela.

Conexão é sobre confiar

Pessoas que realmente sofrem de solidão, geralmente tem uma coisa em comum: dificuldade para confiar no outro. Formar conexões reais requer confiança. Você precisa confiar na outra pessoa para contar seus sentimentos, opiniões, desejos, preocupações e outras coisas. Você precisa se arriscar quando decide ser vulnerável. Algumas vezes o risco vale a pena e às vezes cometemos erros.

O fato é que algumas vezes vamos nos machucar e ter nossa confiança traída. Um amigo pode nos trair. Alguém que você ama vai partir seu coração. Alguém que você gosta irá se distanciar. Ainda sim queremos conexões duradouras e se não queremos sofrer de solidão verdadeira, precisamos nos arriscar de novo e de novo. Não podemos passar nossas vidas escondidos dentro de casa, sem sair e só deixar um comentário aqui e ali no Instagram de alguém. Precisamos dividir, estar com os outros e aceitar o risco.

Se tivermos sorte – e muitos de nós tem mais sorte do imagina – formaremos laços com pessoas que irão apreciar a confiança que depositamos nelas. Não só isso, mas será recíproco. Isso para dizer que, ou outros também irão confiar suas intimidades em nós. Eles reconhecerão que estamos nos arriscando em confiar e pouco a pouco também se aproximarão de nós para compartilharem de si. Com o tempo, se a confiança mútua é respeitada e preservada, irá crescer com o tempo e se tornar uma conexão forte. Essa conexão nos dá, como humanos muito conforto, apoio e resiliência. Seria como dizer” eu vejo quem você é. Esse sou eu. E estou aqui para você”.

Solidão não é uma doença incurável. Ainda sim precisamos ativamente nos esforçar para considerar porque nos sentimos sozinhos e como podemos aplacar a situação. Isso requer nos sentirmos mais confortável com a gente mesmo e com a ideia de confiar nos outros. Ainda assim, nunca passaremos tempo o suficiente com alguém para aplacar nossa solidão, se primeiro não aprendermos a apreciar nossa presença e essência.

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