Apoiando seus filhos durante a Pandemia do Covid-19

Todas as pessoas ao redor mundo todo estão passando por uma experiência sem precedentes na história da humanidade. O que está acontecendo em escala global afeta a todos nós e pode fazer surgir emoções difíceis dentro de nós. Da mesma maneira que adultos são afetados, as crianças também sofrem. Mas diferente dos adultos, a maneira pela qual as crianças percebem, sentem e dão sentido a esses momentos depende muito de seus pais.

Como você se sente como pai ou como mãe?

É importante fazer uma pausa, olhar para si mesmo e ver como lida com esse processo de ser pai e mãe. Como você se sente? Com raiva? Com medo? Confusa? Preocupada? Estressada? Em paz? Não importa como você esteja se sentindo, observe as sensações e se permita sentir. Talvez você sinta que seu espaço foi invadida, porque as crianças estão em casa o dia todo, ou nervosa porque sua rotina foi interrompida e seus planos cancelados. Talvez você se sinta presa porque não pode se mover livremente. Talvez esteja se sentindo preocupada por causa da incerteza da situação. Ou seu nível de estresse esteja mais alto que o normal porque está acompanhando as notícias o dia todo. Lembre-se que todos esses sentimentos e reações são totalmente humanas e normais. Como todo adulto, você também tem uma criança interna. E essa criança pode se sentir insegura nesses momentos complicados. A primeira coisa a fazer é dar voz para essa criança interna e entender o que a está perturbando. Depois tente acalmá-la como um pai ou uma mãe fariam. O que pode acalmar a mente de uma criança e um adulo da mesma maneira? Do que você precisa agora? O que te faz sentir amada? Pode ser falar sobre seus sentimentos com seu parceiro, abraçar alguém querido, ligar para os amigos, refletir sobre si mesmo através da arte ou do humor, meditar, dançar, ficar ativo, dormir bem, comer bem, ser produtivo, compartilhar e ler notícias somente de fontes fidedignas. Para acalmar sua criança interna e preencher esse vazio interno, primeiro você precisa acolher a si mesmo e se dar o que precisa. Uma maneira de fazer isso é descobrir seus recursos internos. Quais sistemas de apoio você tem? Como você  resolve seus problemas? Quais dificuldades você costuma encontrar e como você as supera? Quais habilidades você cultivou para lidar com problemas? Quando você se imagina relaxada e segura, onde você imagina que está?

Explicando a situação para o seu filho

​Olhar para si mesmo enquanto pai e mãe é importante na hora de explicar o que está acontecendo no mundo para seus filhos. Muitas vezes, as crianças observam mais como uma coisa é dita do que o que é dito em si. O foco das crianças é nos pais, seu tom de voz, expressão facial, linguagem corporal e eles conseguem interpretar emoções muito bem. Essas emoções são facilmente transferidas para as crianças e a maneira pela qual escutam e interpretam a informação é afetado. Por isso, o modo pela qual você interpreta as circunstâncias é tão importante. A sua mente te diz: “Como sempre, algo ruim aconteceu. O mundo é um lugar perigoso” ou “A vida tem coisas boas e ruins. Estamos passando por um momento difícil, mas vamos superar”? O quer que sua mente te diga, você acaba passando a mesma perspectiva para o seu filho.

Aprender como esse processo acontece pode te ajudar a criar uma narrativa interna mais positiva. Por exemplo, esse momento é uma oportunidade de desacelerar, dar um passo para trás e observar sua vida. Antes de explicar a situação para o seu filho, é importante se acalmar e internalizar esse momento tanto quanto possível. Se você está com dificuldade de aceitar o que está acontecendo, essa pode ser uma oportunidade de explorar sua capacidade de tolerar as incertezas. Porque é tão difícil para você aceitar que não é possível controlar tudo? Porque você sente que precisa estar em controle?

Quando se sentir pronto, poderá explicar a situação para seu filho de maneira clara, com calma e adequada para sua idade. Se o seu filho é muito pequeno, você pode criar uma história ou fazer um desenho. Você pode dizer que os parentes desse vírus são o frio e o resfriado, que eles pode trazer uma tosse ou febre para dentro do corpo e que ainda estamos conhecendo esse novo personagem. Conte a eles que os médicos estão trabalhando para criar uma vacina e que o corpo tem soldados que são os anticorpos que protegem o corpo. Você pode também explicar que para ficarem protegidos, precisam lavar bem as mãos, espirrar cobrindo bem a boca e ficar em casa por um tempinho. O que o seu filho mais precisa é saber que a saúde deles vem em primeiro lugar e que você, enquanto pai ou mãe, está fazendo de tudo que pode para protegê-los.

Abrindo espaço para as emoções

Depois de falar com seus filhos sobre esse momento difícil, é importante também criar um espaço para que eles possam expressar seus pensamentos e emoções. Pergunte o que eles pensam quando escutam sobre o que está acontecendo. Eles tem alguma pergunta? Talvez você não tenha todas as respostas na hora, mas pode pesquisar e responder depois. Como eles se sentem? Em que parte do corpo tem as sensações? Qual a cor dos sentimentos? Do que eles precisam para lidar melhor com isso? Do que eles precisam para se sentirem seguros? Eles pode falar sobre isso e transformar a história em um jogo. Jogar um jogo é uma ferramenta de cura, onde a criança pode expressar suas fantasias, dar vida para coisas que não podem controlar e criar sentido para o que o rodeia. A criança escreve e dirige o jogo, o pai e a mãe só observam, sem julgamentos ou interrupções somente refletindo o que a criança narra. Dessa maneira, a criança sente que suas emoções são aceitas e acolhidas. Elas sentem que estão sendo ouvidas, vistas e compreendidas. Tudo isso as acalma e permite que se sintam seguras.

Facilitando a maneira pela qual seu filho lida com emoções difíceis

Quando seu filho estiver com dificuldade de lidar com as emoções, vocês podem juntos explorar uma forma trabalhar com isso. O contato físico com alguém que confiam, acalma e estimula a liberação de oxitocina que nos faz sentir mais seguros. Por exemplo, quando uma criança sente medo elas abraçam. Rir alto ou chorar ajuda a liberar o estresse. Estar ativo também ajuda a relaxar. Quando se sentirem nervosos, atividades como correr, lutar, sentar numa bola de pilates, pular, imitar animais são ótimas alternativas para diminuir a pressão. Quando se sentirem preocupados, vocês podem meditar juntos ou criar uma competição em família. Cozinhar, escutar música, brincar com massinha, água ou areia, passar óleos essenciais também ajuda a equilibrar os sentidos e as sensações. Conte ao seu filho o que está acontecendo e escolha bem as palavras. Mas tome cuidado com o tipo de informação que eles recebem para não aumentar sua ansiedade.

Por serem pequenos ainda, e dependerem de seus pais, as crianças têm um espaço limitado onde se sentem ativos e no controle. Para se sentirem calmos e seguros, eles precisam sentir que controlam alguma coisa. Por essa razão é importante manter uma rotina diária tanto quanto for possível. Você também pode reservar uma área que seja só deles, para que façam o que quiserem. Pode ser também dar uma pequena responsabilidade que seja apropriada para a idade deles, como colocar água nas plantas por exemplo. Eles podem fazer um desenho com algo que gostariam de fazer quando esse período terminar e colocar na parede!  

Se protegendo

Como a sua família vai permanecer o tempo todo em casa por um tempo, os limites provavelmente serão alterados e isso pode trazer sentimentos de raiva. Por isso criar um lugar só para você pode te ajudar. Como pai ou mãe, reservar um tempo para brincar e manter esse momento é um limite importante e você precisa tentar não desviar a rotina. Isso pode ajudar a aliviar sensações de raiva e melhorar a qualidade do tempo que você passa com seu filho.

Não é realista esperar que sua vida e suas reações serão normais nesse momento tão fora do normal. Tolerar a bagunça, o desconforto, a incerteza, permitir que seus planos mudem e aceitar que pode ser mais difícil de lidar com as mudanças são coisas que todos nós precisamos aprender a lidar agora. Permitir a si mesmo falhar, ficar entediado, fazer uma pausa e deixar que a vida flua é o grande desafio desse momento. É hora de aceitar esse desafio de braços abertos!

Autora: Psychologist Deniz Özsoy

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